sexta-feira, 4 de maio de 2012

João Miramar

Andrade, Oswald de. Memórias sentimentais de João Miramar. Globo; São Paulo / SP; 1991; 107 páginas.

Breve relato do autor:

Oswald de Andrade foi um escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro. Foi ainda um dos promotores da Semana de Arte Moderna, que ocorreu em 1922, em São Paulo, e considerado pela crítica como o elemento mais rebelde do grupo.


Dados da obra:

Memórias sentimentais de João Miramar é um romance publicado em 1924 e que inclui uma mescla de gêneros. O livro é composto por 163 fragmentos, escrito em diversos estilos. O romance acompanha a vida de João Miramar, uma espécie de caricatura do homem paulistano das classes mais abastadas, à época da juventude de Oswald de Andrade.

Passagens:

Gare do infinito
Papai estava doente na cama e vinha um carro e um homem e o carro ficava esperando no jardim.
Levaram-me para uma casa velha que fazia doces e nos mudamos para a sala do quintal onde tinha uma figueira na janela.
No desabar do jantar noturno a voz toda preta de mamãe ia me buscar para a reza do
Anjo que carregou meu pai.

Sal o may
Os cabarés de São Paulo são longínquos
Como virtudes

Automóveis
E o pisca-pisca inteligente das estradas
Um soldado só para policiar minha pátria inteira

E o gru-gru dos grilos grelam gaitas
E os sapos sapeiam sapas sopas
No alfabeto escuro dos brejos
Vogais

Mobilização
Higienópolis encheu-se às cornetadas da falência e desonra. Meu folhetim foi distribuído grátis a amigos e criados. E a tia Gabriela sogra granadeira grasnou graves grosas de infâmias.
Entrava doméstico para comer e dormir longe de Célia. Os criados eram garçons de restaurante.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Expedições Urbenauta

Fenianos, Eduardo Emílio. Expedições Urbenauta – São Paulo: uma aventura radical. Univer Cidade; São Paulo / SP; 2002; páginas.

Breve relato do autor:

Eduardo Emílio Fenianos é jornalista e urbenauta.

Dados da obra:

Durante 120 dias, Fenianos desbravou a cidade de São Paulo, percorrendo todos os seus bairros a bordo da urbenave, um automóvel adaptado às necessidades da viagem, e atingindo seus extremos pontos cardeais. Ele percorreu 6.676,1 Km e seguiu alguns princípios de disciplina: conseguir pouso e comida sempre no distrito do dia, de preferência em residências, para poder entrar em contato com as pessoas e “entrar” em seu mundo, ficar pelo menos um dia em cada distrito, não voltar para casa em nenhuma hipótese, entre outras.

Passagens:

Apertei o “play” do sistema de som e um locutor de voz grave anunciou: “Atenção para o lançamento da urbenave”... E a contagem regressiva foi iniciada, em bom português, nos mesmos moldes das decolagens dos foguetes que partem para a lua. Eles pra lua. Eu para a rua.
10... penso nos meus pais... 9... não haverá mais o chegar em casa, abrir a porta, ligar a tevê pra fazer de conta que há alguém em casa. Nela ficaram, junto com minhas chaves, o cartão do banco, as contas pra pagar, a xícara em que gosto de tomar leite e os meus preconceitos. Que fiquem lá e que não estejam mais quando eu voltar... 8... peço a Deus... 7... são os anões... 6... só falta este carro morrer agora... 5... muita gente em casa pode estar pensando “tem maluco pra tudo”, 4... mas ocorre que as pessoas estão mais distantes uma das outras do que a Terra está de Júpiter... 3... será que esqueci alguma coisa?... 2... Ahhh! Pensei nela!!... 1... transformei um sonho em realidade... 0... Agora é fazer a realidade se transformar em sonho.”

... Prestei atenção aos sons da mata, bem diferentes dos sons pelos quais São Paulo é conhecida. Tiros, ambulâncias, sirenes, buzinas. Ouvi uma outra sinfonia paulistana e fiquei tentando imaginar quais bichos correspondiam a cada som. Grilos, besouros, sapos, pernilongos, mosquitos, o vento batendo nas árvores, galhos sendo tocados por algum animal. Sons de uma selva que muitos pensam não existir em São Paulo.

Se no dia anterior percorremos nove quilômetros e seiscentos metros em vinte e uma horas aproximadas, ao lado de seu Toninho andamos vinte e um quilômetros em cinco horas, parando ainda para aulas de natureza, sobrevivência e respeito à vida. Era a diferença entre dois tipos de caminhada. Numa delas, se aprende com um guia, com quem já conhece. Na outra, ensina-se a si mesmo, descobre-se por si mesmo. Em uma aprendemos a seguir um caminho. Na outra, tem que se criar um caminho próprio. As duas caminhadas são boas. Na “Caminhada seu Toninho”, caminhamos mais e temos mais tempo para olhar o que está ao redor e aprender com quem já sabe. Na “Caminhada nossos próprios caminhos”, medimos nossas forças e nossa capacidade de enfrentar desafios. Uma nos conduz mais rápido. Na outra, passa-se em lugares onde talvez nunca, ninguém tenha passado. Uma é segura, prática e talvez mais fácil. A outra é criativa, desafiadora e surpreendente. Querendo ou não, a Cantareira, a Serra da Mata Fria, a chuva e tudo o que vivi ali me ensinaram, pelo menos, dois bons caminhos. O acerto estará em qual deles seguir, dependendo de como e onde se quer chegar. A parte noroeste da Cantareira, eu teria que conhecer na segunda fase do projeto, sem saber o que me aconteceria lá.

... O Capivari é o diamante de São Paulo.
Seu curso me ensinou que “dirigir” em um rio é bem diferente de dirigir em uma pista. Numa pista as curvas são sempre as mesmas, mas com um rio, não. Como falei, ele pode mudar como um formigueiro. Ás vezes devemos entregar-nos à sua correnteza. Outras, deve-se lutar contra elas. Um rio é o resumo de uma vida. No seu início, é puro e pequeno como nós quando somos crianças. No seu final, pode ganhar força ou ficar poluído e sujo como muitos ficam. Mas um rio sempre volta. Rios têm jogo de cintura. Não sobem montanhas, mas conseguem transpô-las. Rios têm um jeito especial. São às vezes calmos, às vezes nervosos. Passam por altos e baixos, mas sempre chegam ao mar. Àqueles que quiserem compreender melhor a vida, sugiro que naveguem um rio. Quem fizer isso, vai fazer um bem a si mesmo e jamais fará mal à natureza.

A primeira novidade de uma noite na rua foi sentir os passos das pessoas que caminham na rua, dentro dos meus ouvidos, passando ao lado da minha cabeça. A situação desesperadora é a de não saber se aqueles que caminham na minha direção seguirão seu rumo, se caminham em passos que vêm para ajudar ou se seguem em passos que vêm para provocar algum mal, destruir, assaltar ou atear fogo em um corpo que pode ser um mendigo ou um amontoado de lixo (para certas pessoas isso tanto faz) como aconteceu com um índio que dormia em uma rua de Brasília, a capital do Brasil. Lembrei muitas vezes deste episódio.
Do que fogem os passos que correm rápido de madrugada: O que pensam os passos que andam e, de repente, param ao meu lado? Há passos que cheiram bem e passos que cheiram mal. Passos masculinos e passos delicadamente, escandalosamente, indiscretamente femininos. Minha noite de sono começou com passos. Medo de passos. Em seguida veio o som das motos e dos carros acelerando e a música. A música de quem está voltando da balada e nem imagina estar atrapalhando alguém que tenta dormir na rua.

São Paulo pode levar a caminhos distantes. Enquanto via árvores típicas da floresta tropical úmida na Áustria, escutava Eric Clapton cantar I shot the sherif em um especial da Rádio Eldorado. Depois, dei uma passada na Irlanda; e voltei para a Áustria, que depois ganha o nome de Bélgica e termina como Inglaterra, que nesta geografia fica em uma esquina com a Polônia. Desci até a Suíça e na porção europeia da Turquia fiquei pensando como as ruas, hoje olhadas de forma negativa, poderiam servir como sala de aula para ensinar história, geografia, ciências e convivência. Fiquei um bom tempo refletindo e resolvi continuar parte de minha volta ao Mundo pelo Jardim Europa, um os bairros mais requintados de São Paulo, localizado dentro do distrito de Pinheiros.

Pedi ao meu amigo e sua esposa que nos déssemos as mãos. Lacrimejamos e apertamos as mãos fortemente. Levantei tonto e leve do sofá onde conversamos. Disse o mesmo boa noite de três horas antes e fui dormir. Abri a Bíblia que o Fábio me deu. Lucas 21. Dormi bem. Dormi muito bem depois de saber que senti a presença de Deus ao ouvir Juliana, a mãe-prostituta, falar de seus filhos, ao ouvir Gil, o cego que vê, falar da cegueira humana do mundo de hoje, e ao ouvir Carlo, o bandido, falar das coisas simples da vida que descobriu depois de perder sua liberdade. No dia seguinte, antes de eu partir, Carlo me fez mais um pedido. “Quando você chegar na Praça da Sé, por favor, fale que Deus existe.”

Senti na pele como a felicidade pode estar nas coisas simples e como é relativa. No início desta semana felicidade pra mim foi encontrar um lugar para dormir e tomar um banho quente, em um dia de frio e chuva, em uma casa de invasão, ao lado de uma boca de tráfico, no Jardim São Carlos, bairro da Vila Jacuí.
No momento em que fui aceito na casa, ao tomar o banho quente, ao me deitar em meu saco de dormir, embaixo de quatro paredes, descobri como alguém pode sorrir morando em uma favela.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Na Praia

McEvan, Ian. Na Praia. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2007; 128 páginas.
 
Breve relato do autor:

Ian McEwan nasceu em 1948, em Aldershot, Inglaterra. Publicou duas coletâneas de contos e uma dezena de romances. Conquistou entre outros prêmios, o Whitbread Award, em 1987, e o Booker Prize, 1998.

Dados da obra:
 
Em 1962, na Inglaterra Edward e Florence, se casam virgens e vão passar a lua de mel na praia de Chesil, perto do Canal da Mancha. No hotel, as coisas não acontecem como planejado em razão da educação dos jovens na época, marcada pela repressão moral vitoriana, suscitando assim um grande desencontro entre ambos.

Passagens:

... Em teoria, podiam abandonar seus pratos, agarrar a garrafa de vinho pelo gargalo, correr até a praia, livrar-se dos sapatos e exultar de tanta liberdade. Ninguém no hotel haveria de impedi-los. Afinal, eram adultos em férias, livres para fazer o que bem entendessem. Em poucos anos, seria o tipo de coisa que todo jovem faria. Mas, por enquanto, a época os retinha. Mesmo quando Eduard e Florence estavam a sós, mil regras não ditas continuavam a se impor. Era precisamente por serem adultos que não se entregavam a infantilidades como abandonar no meio uma refeição que outros se deram ao trabalho de preparar. Era hora do jantar, apesar de tudo. E ser infantil ainda não era louvável nem tinha entrado na moda.

Apesar da sensação prazerosa e do alívio, continuava apreensiva, um muro alto, não muito fácil de demolir. Nem ela queria que fosse. A despeito da novidade, não se achava num estado de entrega arrebatada, nem pretendia se apressar nessa direção. Queria demorar-se nesse momento largo, sob a completa proteção das roupas, o olhar castanho e sereno, as carícias afetuosas e o frêmito em expansão. Mas sabia que isso era impossível e que, como todos diziam, uma coisa teria de levar a outra.

Ela não estava segura, mas sabia qual o caminho que tomava. “Você está sempre me forçando, me forçando, querendo tirar alguma coisa de mim. Nunca podemos apenas ser. Nunca podemos apenas ser felizes. Tem sempre essa pressão. Você sempre quer alguma coisa a mais de mim. Essa engambelação interminável.”

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dois Irmãos

Hatoum, Milton. Dois Irmãos. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2000; 266 páginas.

Breve relato do autor:

De origem libanesa, Milton Hatoum é um escritor, tradutor e professor, considerado um dos grandes escritores vivos do Brasil.

Dados da obra:

A trama gira em torno da tumultuada relação entre dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, em uma família de origem libanesa que vive em Manaus. A narrativa apresenta avanços e recuos no tempo, sem uma cronologia linear. Os problemas vão sendo revelados aos poucos.

Passagens:

Os gazais de Abbas na boca de Halim! Parecia um sufi em êxtase quando me recitava cada par de versos rimados. Contemplava a folhagem verde e umedecida, e falava com força, a voz vindo de dentro, pronunciando cada sílaba daquela poesia, celebrando um instante do passado. Eu não compreendia os versos quando ele falava em árabe, mas ainda assim me emocionava: os sons eram fortes e as palavras vibravam com a entonação da voz. Eu gostava de ouvir as histórias. Hoje, a voz me chega aos ouvidos como sons da memória ardente. Às vezes ele se distraía e falava em árabe. Eu sorria, fazendo-lhe um gesto de incompreensão: “É bonito, mas não sei o que o senhor está dizendo”. Ele dava um tapinha na testa, murmurava: “É a velhice, a gente não escolhe a língua na velhice. Mas tu podes aprender umas palavrinhas.”

“... Parecia uma menina de boas maneiras e bom humor: nem melancólica, nem apresentada. Durante um tempinho ela nos deu um trabalho danado, mas Zana gostou dela. As duas rezavam juntas as orações que uma aprendeu em Biblos e a outra no orfanato das freiras, aqui em Manaus.” Halim sorriu ao comentar a aproximação da esposa com a índia. “O que a religião é capaz de fazer”, ele disse. “Pode aproximar os opostos, o céu e a terra, a empregada e a patroa.”

Nunca comemos tão bem. Peixes os mais variados, de sabor incomum, cobriam a mesa: costela de tambaqui na brasa, tucunaré frito, pescada amarela recheada de farofa. O pacu, o matrinxã, o curimatã, as postas volumosas e tenras do surubim. Até caldeirada de piranhas, a caju avermelhada e a preta, com molho de pimenta, fumegava sobre a mesa. E também pirão, e sopa com sobras de peixe, farinha feita das espinhas e cabeças, bolinhos e pirarucu com salsa e cebola.

“Nada nesse mundo pode acalmar um homem traído”, disse Zana.
“O Yaqub pode se arrepender”, disse Rânia. “Não vai perseguir ninguém.”
A mãe olhou-a com tristeza e disse com uma voz rouca, mas firme:
“Tu nunca conviveste com um homem, muito menos com um filho.”
Rânia silenciou.

Naquela época, tentei em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. “Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras”, disse Halim durante uma conversa, quando usou muito o lenço para enxugar o suor do calor e da raiva ao ver a esposa enredada ao filho caçula.

sexta-feira, 9 de março de 2012

A bolsa amarela

Bojunga, Lygia. A bolsa amarela. Casa Lygia Bojunga; Rio de Janeiro / RJ; 2004; 135 páginas.

Breve relato do autor:

Lygia Bojunga é uma escritora gaúcha, autora de livros infantis. Trabalhou na TV e no rádio até seu primeiro livro ser publicado, em 1972. Um elemento importante de seus livros é o uso do ponto de vista da criança.

Dados da obra:

 A Bolsa Amarela é o romance de uma menina, Raquel, que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades (que ela esconde em uma bolsa amarela): a vontade de ser gente grande, a de ter nascido menino e a de se tornar escritora. À medida que a narrativa avança, Raquel vai amadurecendo e definindo suas escolhas.

Passagens:

 Meu irmão fez cara de gozação:
– E por que é que você inventou um amigo em vez de uma amiga?
– Porque eu acho muito melhor ser homem do que mulher.
Ele me olhou bem sério. De repente riu:
– No duro?
– É, sim. Vocês podem um monte de coisas que a gente não pode. Olha: lá na escola, quando a gente tem que escolher um chefe pras brincadeiras, ele sempre é um garoto. Que nem chefe de família: é sempre o homem também. Se eu quero jogar uma pelada, que é o tipo do jogo que eu gosto, todo mundo faz pouco de mim e diz que é coisa pra homem; se eu quero soltar pipa, dizem logo a mesma coisa. É só a gente bobear que fica burra: todo mundo tá sempre dizendo que vocês é que têm que meter as caras no estudo, que vocês é que vão ser chefe de família, que vocês é que vão ter responsabilidade, que – puxa vida! – vocês é que vão ter tudo. Até pra resolver casamento – então eu não vejo? – a gente fica esperando vocês decidirem. A gente tá sempre esperando vocês resolverem as coisas pra gente. Você quer saber de uma coisa? Eu acho fogo ter nascido menina.

A bolsa por fora:
Era amarela. Achei isso genial: pra mim, amarelo é a cor mais bonita que existe. Mas não era um amarelo sempre igual; às vezes era forte, mas depois ficava fraco; não sei se porque ele já tinha desbotado um pouco, ou porque já nasceu assim mesmo, resolvendo que ser sempre igual é muito chato.

“Não quero mandar sozinho! Quero um galinheiro com mais galos! Quero as galinhas mandando junto com os galos!”
– Que legal!
– Legal coisa nenhuma; me levaram preso.
– Mas por quê?
– Pra eu aprender a não ser um galo diferente. Me botaram num quartinho escuro. Tão escuro que quando eu saí de lá tava todo preto. Só depois é que a cor foi voltando. Fiquei preso um tempão; sofri à beça. Aí, um dia, eles me soltaram. E foram logo dizendo: “Daqui pra frente você vai ser um tomador-de-conta-de-galinha como o seu pai era, como o seu avô era, como o seu bisavô era, como o seu tataravô era – senão volta pra prisão.”

– Às vezes a gente quer muito uma coisa e então acha que vai querer a vida toda. Mas aí o tempo passa. E o tempo é o tipo do sujeito que adora mudar tudo. Um dia ele muda você e pronto: você enjoa de ser pequena e vai querer crescer.
– Será?
– É bem capaz.

Mas eu fiquei parada, querendo entender melhor a gente daquela casa. Apontei o homem:
– Ele é teu pai?
– É. – E aí ela apresentou os três: – Meu pai, minha mãe e meu avô.
Eles me deram um sorriso legal e eu cochichei pra menina:
– Por que é que ele tá cozinhando?
Ela me olhou espantada:
– O quê?
Perguntei ainda mais baixo:
– Por que é que ele tá cozinhando e tua mãe tá soldando panela?
– Porque ela hoje já cozinhou bastante e ele já consertou uma porção de coisas: e eu também já estudei um bocado e meu avô soldou muita panela: tava na hora de trocar tudo.
– Por quê?
– Pra ninguém achar que tá fazendo uma coisa demais. E pra ninguém achar também que está fazendo uma coisa menos legal do que o outro.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ribamar

Castello, José. Ribamar. Bertrand Brasil; Rio de Janeiro / RJ; 2010; 280 páginas.

Dados da obra:

Misto de biografia, narrativa de viagem e romance, Ribamar alterna histórias reais com outras inventadas. Trata-se do relato de viagem do autor a Parnaíba (PI), cidade onde seu pai, José Ribamar, viveu. Tem por base a Carta ao Pai, de Franz Kafka, na qual Castello a utiliza para pensar na sua relação com seu próprio pai. O livro ganhou o Prêmio Jabuti 2011 na categoria Melhor Romance.

Breve relato do autor:

José Castello é mestre em Comunicação pela UFRJ, editor do caderno “Ideias” do Jornal do Brasil, cronista e repórter literário de O Estado de S. Paulo.

Passagens:

“Passo a acreditar, então, no diagnóstico que você me deu. Ele se torna uma pedra guardada em meu peito. No colégio, peço ajuda ao professor de biologia, um padre. Nervos são fios sensíveis que se desenrolam no interior do corpo – como um novelo que deus esqueceu dentro de nós. Através deles, escorrem impulsos que se deslocam para cá e para lá. Quando se movem muito rápido, provocam agitação. Quando desaceleram, trazem a angústia. Não há saída.”

“Tenho os olhos vazios. Um sopro ergue minha íris. Sou, como se diz, um Sampaku, alguém incapaz de ter uma reação adequada ao perigo e que, por isso, traz os olhos deslocados pelo pavor.
Também Franz Kafka se esquivou da luta contra Hermann, preferindo a mudez. Embora nervosos, seus olhos continuaram fixos, depositados bem no centro das órbitas. Talvez porque em seus escritos ele não parasse de gritar.
Minha íris não toca a parte inferior dos olhos. Ao contrário, ela se ergue – como se batesse asas, lutando para escapar das pálpebras. Diz-se que os Sampakus habitam um espaço cinzento entre a vida e a morte. Sempre me senti um pouco separado da existência.
Em situações de risco, congelo; nessas horas, meus olhos se erguem na esperança de não ver.”

“Você me falou, um dia, da falsa origem da família. Em Lisboa, um jovem comerciante desposa uma Castelo Branco. Após as núpcias, o casal emigra para o Brasil. Na costa do Ceará, um naufrágio. A mulher morre, ele sobrevive. Para homenageá-la, o marido, um Queiroz, adota o sobrenome da esposa. Dele – como uma nave que se prende a um fio imaginário – descende toda a família no Brasil.
‘Investigue isso melhor’, meu tio sugere. Não farei isso: não quero correr o risco de perder a lenda que você me deu. Prefiro conservá-la, mesmo à custa da verdade. A verdade esfaqueia. A ficção enrijece.
Como um verdadeiro Castelo Branco (pois o verdadeiro Castelo Branco, a julgar pela lenda, é falso), fico com a ficção.”

“Vejo escrito em um muro: ‘Todo neurótico é um container’. Estou com 12 anos, busco um frase que me defina. No lugar mais improvável, eu a encontro.
Há um sentido duplo no verbo conter. De um lado, significa guardar, incluir. De outro, represar, frear o ímpeto, impedir. Aquilo que guardo é o que me refreia. O que incluo (o que sou) é o que me impede de ser.
Volto ao ‘container’. Trata-se de um recipiente, em geral de grandes dimensões, destinado ao acondicionamento e transporte de cargas, me diz um dicionário. Guarda (esconde) aquilo que pesa e que, por isso, não pode estar em outro lugar. Também eu carrego minhas pedras.”

“Anos depois, encontro meu tio, por acaso, em um café. Vou para a faculdade, sou eu quem, dessa vez, levo comigo um livro.
‘É um romance ingênuo que eu, por vergonha, escondo. O que um tio rebelde pensará de mim? Enquanto ele lê para avançar e se fortalecer, eu leio para voltar atrás e para fugir. Livros, de fato, podem tudo.
Insiste tanto que eu o mostro. Abre um sorriso, aceita minha aflição. ‘Não é o autor que escreve um livro, mas o leitor.’
Com uma frase simples, deposita sobre meus ombros um destino. Quando saio do café, já sou outro.”

Agora que você não pode mais protestar, agora que está retido em seu último silêncio, nada me ameaça. Posso tudo: e é contra isso – contra esse tudo – que devo lutar para conseguir escrever. Um escritor que pode tudo nada tem a dizer.
Filho vingativo (terá o professor Jobi razão?), manipulo o que você me diz, moldo as palavras segundo meus interesses, falsifico. Não é só o pai que faz o filho. O filho, de modo mais traiçoeiro, constrói (destrói) o pai.
Não, pai, não escrevo para me desforrar. Escrevo para chegar mais perto de você. Nossos atos, porém, nos ultrapassam. Quero fazer uma coisa e faço outra. Diabos.”

“O escritor é um viajante que, contando apenas com uma precária bússola, chega a um destino que nunca planejou. Todo escritor é um náufrago. Um Robinson.
Nem por isso seu destino se torna menos verdadeiro; ao contrário, o inesperado o avaliza. A esse porto inexistente chamamos, enfim, de literatura.”

“Já não me interesso pelo Dicionário poético de meu bisavô, Manuel Thomaz. Chave inútil, não abre porta alguma. Em vez de abrir, ela multiplica as trancas.
Só agora me dou conta: esqueci minha Carta ao pai – o mesmo livro que, um dia, lhe dei – em uma gaveta do hotel. Eu o deixei em Parnaíba, pai. Quem será o próximo a ler?”

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Belas Maldições

Gaiman, Neil; Pratchett, Terry. Belas maldições: as belas e precisas profecias de Agnes Nutter, bruxa. Bertrand Brasil; Rio de Janeiro / RJ; 2010; 376 páginas.

Dados da obra:

Nesta divertida obra, os autores falam sobre o Apocalipse. Segundo as profecias, o mundo vai acabar em um sábado, antes do jantar. Um anjo e uma serpente tentam evitar, já que gostam de viver na Terra, mas a chegada do Anti-Cristo, na pele de um menino de 11 anos, parece apressar o fim.

Breve relato do autor:

Neil Gaiman é um escritor inglês de romances e quadrinhos, autor da conhecida série em HQ Sandman.
Terry Pratchett é também um escritor inglês, mais conhecido pelos livros da série Discworld.

Passagens:

“Crowley deu um soco no volante. Tudo estava indo tão bem, ele realmente tivera tudo sob controle nestes últimos séculos. É assim que acontece, você acha que está no topo do mundo, e de repente jogam o Armagedon em cima de você. A Grande Guerra, a Última Batalha. Céu versus Inferno, uma Queda, sem rendição. E estamos conversados. Nada mais de mundo. Era isso o que o fim do mundo queria dizer. Nada mais de mundo. Só o Céu eterno ou, dependendo de quem ganhasse, o Inferno eterno. Crowley não sabia qual era pior.
Bom, o Inferno era pior, claro, por definição. Mas Crowley se lembrava de com era o Céu, e ele tinha algumas coisas em comum com o Inferno. Pra começar, não se conseguia uma bebida decente em nenhum dos dois. E o tédio que se sentia no Céu era quase tão ruim quanto a animação que se tinha no Inferno.
Mas havia como escapar disso. Não era possível ser um demônio e ter livre-arbítrio.”

“Crowley sempre soubera que estaria por perto quando o mundo acabasse, porque era imortal e não teria outra alternativa. Mas esperava que ainda demorasse muito.
Porque ele gostava das pessoas. Era um grande defeito num demônio.
Ah, ele dera o melhor de si para infernizar as vidas deles, porque esse era o seu trabalho, mas nada que ele pudesse pensar era metade do que eles pensavam por conta própria. Pareciam ter um talento para isso. Estava embutido no projeto de criação deles de algum modo. Nasceram num mundo que era contra eles em um milhão de coisinhas, e então dedicavam a maior parte de suas energias a torná-lo pior. Ao longo dos anos, Crowley achara cada vez mais difícil encontrar algo de demoníaco a fazer que se destacasse contra o pano de fundo natural da maldade generalizada. No decorrer do último milênio, houve momentos em que sentiu vontade de enviar uma mensagem lá para Baixo dizendo: escutem, que tal a gente desistir de tudo agora, fechar Dis e o Pandemônio e todo o resto e nos mudarmos para cá? Não há nada que possamos fazer a eles que eles já não façam por conta própria, e eles fazem coisas que nós sequer pensamos, frequentemente envolvendo eletrodos. Eles têm o que não temos. Eles têm imaginação. E eletricidade, é claro.
Um deles havia escrito isso, não havia? ‘O inferno é vazio, e todos os demônios estão aqui.’”

“E havia Outro. Eles estava na praça em Kumbolalândia. E estava nos restaurantes. E estava no peixe, e no ar, e nos barris de herbicida. Estava nas estradas, e nas casas, e nos palácios, e em galpões.
Não havia lugar onde fosse estranho, e não havia como escapar dele. Ele estava fazendo o que fazia melhor, e o que estava fazendo era o que ele era.
Ele não estava esperando. Estava trabalhando.”

“– Sabe, o mal sempre contém as sementes de sua própria destruição – disse o anjo. – Em última instância, ele é negativo, e portanto abrange sua queda mesmo em seus momentos de aparente triunfo. Não importa o quão grandioso, o quão bem-planejado, o quão aparentemente à prova de falhas um plano maligno possa ser, a condição pecaminosa inerente irá, por definição, se voltar contra seus instigadores. Não importa o quanto aparentemente bem-sucedido ele possa parecer ao longo do caminho, ao fim ele se quebrará. Afundará sobre as rochas da iniquidade e afundará de cabeça para desaparecer sem um vestígio nos mares do esquecimento.”

“– É difícil descrever. Alguma coisa ou alguém ama este lugar. Ama cada centímetro dele de forma tão poderosa que o escuda e protege. Um amor profundo, imenso, forte. Como alguma coisa ruim pode começar aqui? Como pode o fim do mundo começar num lugar com este? Este é o tipo de cidade onde você gostaria de criar seus filhos. É o paraíso das crianças. – Ela sorriu cansada. – Você devia ver os meninos daqui. Eles não existem! Saíram direto dos livros infantis” Todos com os joelhinhos ralados, todos umas gracinhas e...”

“Às vezes os seres humanos são muito parecidos com abelhas. Abelhas protegem ferozmente sua colmeia, desde que você esteja fora dela, uma vez lá dentro, as operárias passam a supor que você deve ter sido liberado pela administração e nem ligam para você; vários insetos de carga evoluíram para uma existência melíflua devido a este fato. Humanos agem da mesma forma.”

“Não sei o que tem de tão fantástico em criar pessoas como pessoas e então ficar chateado porque elas se comportam feito pessoas – disse Adam severo. – De qualquer forma, se vocês parassem de falar pras pessoas que tudo vai ser definido depois que elas morrerem, elas poderiam tentar definir tudo enquanto estivessem vivas. Se eu mandasse, tentaria fazer as pessoas viverem bem mais, que nem o velho Matusalém. Seria muito mais interessante e eles poderiam começar a pensar no tipo de coisas que estão fazendo com todo o ambiente e a ecologia, porque eles ainda estariam por aqui cem anos depois.”